2 de novembro de 2026 | REGIÃO DO SISAL

Três entradas na Argentina em 40 minutos: os bastidores da fuga de Flávio Bolsonaro do Brasil

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Uma investigação do Fantástico revelou os detalhes da operação logística envolvida na fuga do senador Flávio Bolsonaro (PL) para os Estados Unidos.

Com base em informações e documentos do sistema de imigração da Argentina que integram uma investigação realizada em cooperação internacional, o Fantástico apurou que a operação do político brasileiro envolveu três passagens pela Argentina em 40 minutos e a participação de um homem apontado como ex-oficial do serviço de inteligência israelense.

O ponto de partida do voo para o exterior foi a cidade de Puerto Iguazú, na Argentina, vizinha a Foz do Iguaçu (PR), cujo aeroporto internacional possui uma pista de 3.300 metros apta a receber jatos executivos de grande porte.

Flávio deixou o Brasil após o Supremo Tribunal Federal (STF) determinar que ele entregasse os passaportes à Polícia Federal.

Os voos e a travessia terrestre

Os dados apontam que a rota foi dividida em duas frentes. Numa das versões apuradas, Flávio Bolsonaro deixou Brasília às 5h05 da terça-feira, 27 de outubro, em um jato Cessna Citation Excel ligado ao advogado Willer Tomaz, amigo do senador.

A aeronave pousou às 8h40 em San Fernando, na região de Buenos Aires, de onde o parlamentar teria seguido em outro voo privado para Puerto Iguazú.

Já a esposa de Flávio, Fernanda, e as duas filhas do casal partiram de Brasília em um segundo avião com destino a Cascavel, no oeste do Paraná.

Às 20h02 daquela mesma noite, as três embarcaram no hangar do aeroporto de Cascavel em uma van identificada como pertencente à empresa Iguaçu Dallas Travel Turismo Ltda., de Foz do Iguaçu.

Ao checar o endereço da empresa cadastrado na Receita Federal, a reportagem encontrou apenas um estacionamento, e trabalhadores locais relataram que a agência nunca funcionou no local. A responsável pelo estacionamento declarou ser irmã de uma das representantes da Dallas.

Ao ser questionada sobre o endereço da irmã, afirmou: “O meu comércio é aqui.”

A Dallas Turismo publicou nota em suas redes sociais negando ter transportado o candidato.

Registros migratórios e escolta

Documentos obtidos pelo Fantástico revelam que duas vans da empresa cruzaram a fronteira de Foz do Iguaçu em direção à Argentina naquela noite.

Na van vinda de Cascavel constavam os dados da esposa e das filhas do senador. Em relação a Flávio Bolsonaro, o sistema registrou três entradas na mesma van: às 22h37 (com passaporte italiano), às 22h40 (com carteira de motorista) e às 23h11.

Os dois registros com documentos brasileiros foram posteriormente cancelados, ficando válido apenas o ingresso com passaporte italiano.

A outra van havia cruzado o controle cerca de sete minutos antes. Nela viajavam o motorista Neri Luiz Dala Corte, o advogado Roberto Jorge Alexandre — que atuou na defesa do ex-presidente Jair Bolsonaro — e o israelense Menachem Booky Halevy, apontado como ex-oficial do serviço de inteligência de Israel.

Menachem, que tem registros em eventos ao lado de autoridades como o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, havia entrado no Brasil em 19 de outubro por Guarulhos e já contava com outras três passagens pelo país no ano.

Procurado em sua residência, o motorista Neri Luiz Dala Corte afirmou ter sido contratado para buscar dois homens em um posto de gasolina em Foz do Iguaçu e levá-los ao aeroporto de Puerto Iguazú, negando ter visto membros da família Bolsonaro.

“Eu levei duas pessoas que eu nem sei quem é. Simplesmente deixei os caras no aeroporto. Eles desceram, fiz a volta, e quando tava saindo tinha uns repórteres assim na minha frente.”

O jornalista argentino Nicolás Munafó, do canal de notícias “C5N” e que estava no aeroporto, confirmou ter abordado o motorista. Nicolás presenciou a comitiva e relatou a presença de escolta policial e veículos oficiais.

Apesar do registro de entrada terrestre, a principal linha de investigação aponta que Flávio desembarcou em Puerto Iguazú de avião, vindo de Buenos Aires, e aguardou por horas dentro da aeronave na pista a chegada da família.

Questionamentos na Argentina e a contratação do voo executivo

A operação gerou questionamentos no país vizinho. A Justiça argentina ordenou a preservação de imagens das câmeras de segurança da fronteira e do aeroporto de Puerto Iguazú.

Em entrevista ao Fantástico, a deputada argentina Marcela Pagano afirmou ter cobrado explicações das autoridades.

O Secretário de Comunicação da Presidência da Argentina, Fabian Fernandez, disse que o governo não tem nada a declarar.

A viagem para os Estados Unidos foi realizada em um jato de luxo Gulfstream G400, operado pela empresa argentina Baires Fly.

O dono da companhia, o empresário Luis Grande, revelou à agência France Press que o voo custou 150 mil dólares (cerca de R$ 800 mil), pagos por um intermediário do setor de aviação baseado nos EUA, por meio de transferência de uma conta empresarial americana para um banco argentino. Grande afirmou não saber quem era o contratante final.

A imprensa norte-americana apontou que Jason Miller, assessor de Donald Trump, teria providenciado a viagem. O jornal argentino “Clarín” publicou que agentes americanos teriam assumido o controle de parte do aeroporto de Puerto Iguazú.

A chegada aos EUA

O jato que levava Flávio Bolsonaro e sua família fez uma escala de reabastecimento em Guayaquil, no Equador, antes de seguir para Miami. O desembarque ocorreu na manhã de quarta-feira, 28 de outubro, no Aeroporto Executivo de Opa-Locka.

Sobre a chegada de Flávio nos EUA, o presidente Donald Trump afirmou que “não tomou partido” nas eleições brasileiras. Já o Secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, negou auxílio na saída do senador do Brasil.

“Não facilitamos nada. Não tivemos nenhuma participação nos preparativos que ele fez. O governo dos Estados Unidos não teve participação direta em nenhuma das movimentações realizadas.”

Rubio explicou que o parlamentar já possuía visto anteriormente e que a presidência americana autorizou a sua entrada no país.

Posicionamentos oficiais

Horas após chegar nos Estados Unidos, Flávio Bolsonaro divulgou uma carta contestando o resultado das eleições presidenciais, sem apresentar provas de fraude. Na primeira versão, ele se qualificava como o “verdadeiro presidente eleito do Brasil”; em versão modificada, passou a se definir como “líder do Brasil”.

O advogado Frederick Wassef, representante legal de Flávio, declarou ao Fantástico que nenhuma informação sobre a viagem é oficial ou foi confirmada, e negou que tenha se tratado de uma fuga.

A Baires Fly não enviou resposta.

A assessoria do advogado Willer Tomaz afirmou em nota:

“É falsa a informação de que aeronave pertencente a ele, ou a empresas vinculadas à sua família, tenha sido utilizada pelo senador Flávio Bolsonaro ou por seus familiares para deixar o Brasil.”

Flávio Bolsonaro exerce o mandato de senador até o fim de janeiro do próximo ano, momento em que ficará sem cargo eletivo e sem foro privilegiado pela primeira vez em 24 anos.

Ele é investigado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em dois inquéritos: um relativo à suposta lavagem de dinheiro com o advogado Willer Tomaz em caso ligado a empresas de apostas (bets), e outro referente a repasses para o filme Dark Horse, efetuados pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro.

Willer também negou em nota a prática de lavagem de dinheiro.

por g1