Em tempos de pré-campanha, debates, encontros políticos e eventos partidários, uma cena começa a se tornar cada vez mais comum: candidatos e lideranças políticas aparecem ao lado de intérpretes de Libras para garantir que pessoas surdas possam acompanhar discursos, propostas e discussões.
A presença do intérprete é um avanço importante. É uma demonstração de que acessibilidade e comunicação inclusiva precisam fazer parte da democracia. Mas fica uma pergunta incômoda: depois que o evento termina, onde está a inclusão?
A preocupação com a acessibilidade nos palcos ainda não se transforma, na mesma proporção, em propostas concretas nos planos de governo, nos discursos dos candidatos e nas prioridades das administrações públicas.

Dados
O Censo Demográfico 2022, do IBGE, identificou 14,4 milhões de pessoas com deficiência no Brasil entre a população de 2 anos ou mais, o equivalente a 7,3% desse grupo populacional. O levantamento considerou dificuldades relacionadas à visão, audição, locomoção, coordenação motora fina, cognição e comunicação.
Na Bahia, o percentual é ainda maior: 7,9% da população de 2 anos ou mais foi identificada pelo Censo 2022 como pessoa com deficiência. Entre as mulheres baianas, o percentual chega a 8,8%; entre os homens, 7,0%.
São centenas de milhares de baianos que enfrentam diariamente barreiras para estudar, trabalhar, circular, acessar serviços públicos, praticar esportes, consumir cultura e participar da vida política. E é justamente aí que a discussão precisa avançar.
Não basta garantir que uma pessoa surda consiga acompanhar um discurso eleitoral. É preciso garantir que ela tenha condições de participar da construção das políticas públicas. Não basta colocar Libras em um debate. É preciso discutir educação bilíngue, formação de intérpretes, atendimento nos serviços públicos, acesso à saúde, emprego, cultura, esporte, transporte e comunicação acessível.

Representação política
Dados do próprio IBGE mostram que, nas eleições municipais de 2020, apenas 0,44% das candidaturas para vereador eram de pessoas com deficiência. O instituto também aponta desigualdades profundas no mercado de trabalho: em 2019, a participação das pessoas com deficiência na força de trabalho era de apenas 28,3%, contra 66,3% entre as pessoas sem deficiência.
Quando a representação é pequena, a possibilidade de determinados temas chegarem ao centro das decisões também diminui.
Nas eleições de 2022 na Bahia, a população escolheu 63 deputados estaduais. O resultado oficial mostra uma grande diversidade de nomes eleitos, mas não registra uma representação de pessoas com deficiência no Parlamento estadual.

Direito a comunicação
O próprio IBGE já demonstrou que a deficiência está associada a desigualdades importantes em educação, trabalho, renda e participação social. O instituto destaca que essas barreiras comprometem a plena participação das pessoas com deficiência na sociedade.
Também é importante lembrar que a deficiência auditiva não é uma realidade pequena. A Pesquisa Nacional de Saúde do IBGE identificou, em 2019, cerca de 2,3 milhões de pessoas com deficiência auditiva no Brasil. Entre as pessoas de 5 a 40 anos com deficiência auditiva, 22,4% sabiam utilizar Libras; entre aquelas que não conseguiam ouvir de forma alguma, esse percentual chegava a 61,3%.
Esses números mostram que falar de Libras não é falar de um detalhe de um evento político. É falar de direito à comunicação, cidadania e participação.
O intérprete de Libras durante a campanha é necessário e deve ser celebrado, mas ele não pode ser utilizado apenas como símbolo de uma política inclusiva que não existe no restante do projeto.
Direito a votar e ser votado
O número de eleitoras e eleitores com deficiência na Bahia cresceu 62,2% em relação ao pleito de 2022. Atualmente, 101.818 pessoas declararam algum tipo de deficiência no cadastro eleitoral.
Se você é eleitora com deficiência ou mobilidade reduzida e deseja votar em uma seção com acessibilidade, pode solicitar a Transferência Temporária de Eleitor (TTE) até 20 de agosto. Procure o cartório eleitoral mais próximo ou acesse o e-Título.
Não existe democracia sem inclusão!
Redação

