“Nunca veremos uma mulher no UFC!”, afirmou Dana White, Presidente da maior Organização de Artes Marciais Mistas (MMA). A declaração foi feita em 2011 e pouco tempo depois, uma mulher tornou- se a nova Mike Tayson e obrigou o “chefão”, conhecido por suas declarações contundentes, a se retratar todas as vezes que monta um cartel com a presença feminina.
A norte-americana Ronda Rousey foi um fenômeno! A ex-judoca virou estrela, inclusive de Hollywood, mas antes dela atrair os holofotes, já havia brasileira – Cris Cyborg – abrindo caminho para outras tantas soltarem a mão (pesada) no ringue.
E o homem que proferiu a declaração infeliz e carregada de desdém, hoje agradece, com um sorriso de orelha a orelha, pela presença das meninas em sua organização e diz que foi a melhor coisa que poderia ter feito.
Ele queimou a língua!
Teve que engolir: as mulheres revolucionaram o MMA.
Mas é claro que não se trata de arrependimento, apenas das cifras!
Quando o UFC estava com seus principais ídolos em decadência, inclusive com Anderson Silva lesionado, foram as mulheres que “salvaram” a entidade protagonizando confrontos multimilionários. Como o público não podia ver os grandes nomes no octógono, as mulheres passaram a ser novidade nos ringues e deram conta do recado, transformando a história do MMA.
As brasileiras foram ganhando espaço e se consolidando nas categorias, a medida que o esporte se tornou uma verdadeira febre no país. Além de Cyborg, nomes como Cláudia Gadelha, Jéssica Andrade e a Leoa, a nossa baianinha Amanda Nunes, que entrou para o Hall da Fama do UFC neste ano de 2025, jamais serão esquecidos.
Nesta tarde (25), um novo nome ficará marcado no UFC e no mundo do esporte: o confronto entre Virna Jandiroba e Mackenzie Dern carrega a história de duas mulheres que farão jus a máxima: o importante é competir!

Para Mackenzie – filha do renomado Megaton Dias-, a dificuldade em aliar a disciplina que se exige de uma atleta profissional com os deveres da maternidade é o ápice de sua rotina exaustiva.

Além dessa jornada de linhas tênues, que passou a ser enxergada como ex-lutadora pelo simples fato de ter gerado uma filha, ainda sofreu violência física e psicológica do surfista brasileiro Wesley Santos. A brasileira com dupla cidadania, denunciou o agressor e ainda sofreu o revés de ter de pagar pensão ao ex-companheiro. À época, o casal vivia nos EUA e, segundo a lutadora, quando resolveu pedir o divórcio o então marido resolveu acusá-la de abandonar a pequena Moa para treinar. Toda essa montanha russa vivenciada por Dern não foi capaz de fazê-la desistir. A filha foi o principal combustível para subir no octógono e vencer a misoginia, o preconceito e o medo de denunciar seu agressor.

E quem vai enfrentá-la hoje será outra brasileira, só que da Bahia, de Serrinha. A Carcará está voando na competição já faz um tempo, mas nunca teve vida fácil.
Na fase da adolescência, ela ingressou no Kung-Fu e depois no Judô, mas não vingou: as turmas eram somente para meninos e nós já podemos imaginar que não foi nada confortável para ela; quando foi apresentada ao jiu-jitsus, se apaixonou. Nesse período, ela morava em sua terra natal e viajada todos os dias para Feira de Santana, cidade vizinha, para cursar a graduação.
Em 2018 ela sagrou-se campeã do Invicta FC e em menos de dois anos fazia sua estreia no UFC.
Enfrentou dificuldades de patrocínio e, como poucos, manteve-se fiel ao coaching e as suas origens: Jandiroba continua no Brasil, treinando com a mesma equipe, na mesma academia, mas o seu jogo melhorou bastante desde o ingresso na competição.

Virna ganhou um shape e uma variação de luta. Manteve o seu jiu-jitsu em dia e treinou bastante a trocação. Mais madura, percebe que sua evolução não se deu tão somente dentro do cage, como também no campo emocional. A Carcará que lê Friedrich Nietzsche e curte Raul Seixas, acredita que vai ser uma luta dura, mas aposta que dessa vez vencerá.
Para quem não acompanha de perto a modalidade, em 2020, as duas atletas se enfrentaram e Mackenzie ganhou a luta por decisão unânime dos juízes. Hoje, no co-main event do UFC 321, a história vai ser diferente: as duas atletas já se conhecem, estão mais experientes e devem apresentar um volume de jogo tamanho, que promete ser a luta da noite.

Ambas têm estilo de jogo parecido pois vieram da escola da arte suave – onde a técnica é superior a força bruta – e sinceramente, ver duas mulheres competindo nesse nível, me orgulha. Para elas chegarem no esporte já foi dificíl, imagina permanecerem focadas, treinando três, quatro vezes ao dia levando porrada das adversárias e da sociedade avessa a equidade de gênero.
Eu nasci em Serrinha e não posso negar que minha torcida vai para Virna, é claro, que resiste às dificuldades em ser mulher, nordestina, lésbica e lutadora de MMA. Mas as duas heroínas carregam uma representatividade gigantesca, só que diferente das Amazonas de Daomé, elas podem ser o que quiser. Se antes era proibido ter vida própria para serem guerreiras, hoje, elas têm filho e esposas e lutam dentro e fora do octógono por equidade, justiça e liberdade.
E quanto ao polêmico Dana, além do desconforto de ter engolir as mulheres, passou por outra situação vexatória: foi filmado agredindo fisicamente sua esposa numa festa de réveillon e pediu desculpas publicamente. Bom, isso por si só diz muito sobre como ele entende o ser feminino.
Enquanto ele enterra sua biografia, as duas meninas já sobem pra lutar sendo campeãs.
O cinturão vai ser apenas um adereço!
Esse texto foi escrito por uma mulher fascinada por esporte e que foi proibida na infância de treinar jiu-jitsu.
Colunista