7 de março de 2026 | REGIÃO DO SISAL

Quando Iemanjá se tornou branca? Orixá das águas e da fertilidade é associada à sereia branca de cabelo liso

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A representação de Iemanjá como uma mulher branca no Brasil é resultado de um longo processo histórico marcado pela colonização, pelo racismo e pelo sincretismo religioso. Especialistas ouvidos pela BBC News Brasil explicam que, assim como ocorreu com a imagem de Jesus Cristo — historicamente distante do padrão europeu —, a figura de Iemanjá foi moldada a partir de uma lógica de embranquecimento imposta pela dominação cultural europeia.

Segundo a historiadora Helena Theodoro, a colonização instituiu uma hierarquia racial que demonizou religiões indígenas e africanas, associando o “humano” e o “civilizado” ao padrão europeu branco. Nesse contexto, povos negros escravizados passaram a associar seus orixás a santos católicos como estratégia de sobrevivência religiosa, utilizando festas e imagens cristãs para manter seus cultos.

Foi assim que Iemanjá, orixá ligada às águas e à fertilidade, passou a ser sincretizada com figuras como Nossa Senhora das Candeias, Nossa Senhora dos Navegantes e da Conceição. Durante décadas, imagens católicas estiveram presentes nos terreiros, prática que lideranças como Mãe Estela de Oxóssi, do Ilê Axé Opó Afonjá, lutaram para desconstruir, reafirmando a autonomia do candomblé.

A popularização da imagem de Iemanjá como mulher branca ocorreu principalmente com o surgimento da umbanda, no início do século XX. Essa religião aprofundou o sincretismo ao reunir elementos do espiritismo, cristianismo, candomblé e culturas indígenas. Para o cantor e pesquisador Nei Lopes, essa estética branca surge em um contexto de “desafricanização” da cultura afro-brasileira, já que, nas tradições mais antigas, os orixás não são representados em forma humana, mas como forças da natureza.

No candomblé, Iemanjá não possui cor de pele, pois simboliza uma energia ligada às águas. Ainda assim, estudiosos como a historiadora Carolina Rocha defendem a importância de afirmar sua negritude como forma de combater o apagamento cultural promovido pelo colonialismo. Para ela, a representação branca reforça um processo de “epistemicídio”, que inferioriza saberes e símbolos de origem africana.

Rocha também critica a estética ocidental associada à entidade, que a apresenta como uma mulher magra, de traços europeus, apagando símbolos tradicionais de fertilidade, abundância e prosperidade, como seios fartos e quadris largos. Segundo a pesquisadora, esse debate não é apenas estético, mas profundamente ligado à autoestima e à valorização da identidade negra.

Brooklyn Museum 1992.70 (Artist: Osi-Ilorin, Ekiti Region, Nigeria)

Embora o debate esteja cada vez mais presente nos terreiros e na academia, há resistências, especialmente em festas populares e celebrações sincréticas, como procissões e homenagens públicas.

Festa de Iemanjá

Hoje, dia 2 de fevereiro, é celebrada a tradicional Festa de Iemanjá no bairro do Rio Vermelho, em Salvador. A festividade reúne milhares de devotos e turistas em uma das maiores celebrações religiosas e culturais da Bahia.
Ao longo do dia, fiéis participam de rituais, cortejos e da entrega de oferendas, mantendo viva uma tradição que atrai moradores e visitantes à capital baiana todos os anos.

O que tem chamado atenção de alguns fiéis, são as visitantes que participam da festa exibindo caudas e cabelos longos, associando-se a imagem de uma sereia, carregada de elementos que não possuem relação com a divindade. Eles também alertam para presença incômoda de muitos fotógrafos que, ao notarem o início de ritual, se aproximam de forma invasiva, atrapalhando o momento de fé.

Educação

Pesquisador da afrobaianidade e professor da Universidade do Estado da Bahia (Uneb), Gildeci Leite diz que o debate sobre a cor de Iemanjá está vivo nos terreiros baianos, mas ressalta que ainda hoje predomina a representação branca da entidade.

Muitos pesquisadores defendem que a discussão avance por meio da educação e do diálogo, respeitando os diferentes processos históricos e religiosos, para que a valorização das matrizes africanas aconteça sem novas formas de opressão.

Redação com informações da BBC