Uma personal trainer, que é mulher cis, foi agredida verbalmente ao ser confundida com uma mulher transexual, dentro da academia em que estava dando aula, em Boa Viagem, na Zona Sul do Recife.
Casal impede personal de usar banheiro em academia por suspeitar que profissional era mulher trans pic.twitter.com/XS7NJmU2Dt
— 98 FM Natal (@98FMNatal) May 27, 2025
Kely Moraes, que não é trans, contou que tinha acabado de sair do banheiro feminino quando foi abordada por uma aluna do estabelecimento, que a xingou. Em seguida, um homem se juntou à agressora e até bloqueou a entrada do local para impedir que a vítima entrasse.
O caso aconteceu na manhã desta segunda-feira (26). Kely disse que caiu da moto no caminho e foi ao banheiro se limpar, já que estava com o pé sangrando. Na saída, encontrou a agressora, que estava entrando no local.
“Ela disse que eu não podia ir no banheiro, e eu perguntei por quê. Ela disse ‘não é lugar para você’ e eu perguntei, novamente, por quê. Ela disse que o banheiro de homem era lá embaixo. Disse ‘você é trans, mas é um homem’. Eu me alterei um pouco e minha aluna, que está grávida, chegou, pegou a conversa no meio do caminho e ficou muito nervosa”, contou.

A personal trainer filmou parte da confusão. No vídeo, é possível ouvir a aluna dizendo para a vítima mostrar a identidade ao agressor, que aparece vestindo uma regata preta, com uma garrafa rosa na mão. Um professor da academia tenta acalmar os dois.
O homem fala que, no andar de baixo, tem um banheiro para Kely, que pergunta “porque eu sou o quê?”. “É inclusa, é inclusiva, lá embaixo”, diz o agressor. A personal trainer diz que vai entrar no banheiro de todo jeito, e o homem nega, se colocando na frente. Em seguida, a mulher que iniciou a confusão aparece na frente do banheiro.

Kely Moraes trabalha como personal trainer há três anos. Ela contou que é fisiculturista e, por causa do porte físico, já teve a identidade de gênero questionada outras vezes.
“Por ser fisiculturista, nosso corpo é diferenciado, e isso é relativamente normal acontecer, as pessoas olharem feio. Eu já fui convidada a me retirar de uma festa. Mas nunca tinha acontecido nada nessa proporção, nada tão violento. Me senti ofendida, humilhada, ela gritava para todo mundo e as pessoas mandavam eu ficar calada. Eu que era a vítima ali”, disse.
Depois que os dois agressores saíram da academia, Kely contou que foi acolhida pela academia, e foi, junto com a aluna, à Delegacia de Boa Viagem. Lá, as duas registraram boletim de ocorrência na Polícia Civil.
Assista relato:
Quem é “Monster”, fisiculturista atacada ao ser confundida com mulher trans
Fisiculturista há 15 anos, Kely Moraes, 45, foi alvo de um ataque transfóbico na última segunda-feira (26) depois de ter sido confundida com uma mulher trans.
Moradora do bairro Roda de Fogo, na periferia da zona norte do Recife, ela divide a vida entre os treinos, o trabalho como personal trainer e gosta de criar conteúdos para as redes sociais. Na internet, compartilha dicas sobre bem-estar, autoestima e saúde mental.

“Eu costumo postar minha vida, meu cotidiano. Vivo lutando contra depressão e síndrome do pânico. Sempre que posso, falo sobre autoestima, porque isso melhora quem me acompanha e, principalmente, me ajuda também”, conta a profissional, que se apresenta nas redes sociais como Treinadora Monster.
A paixão pela musculação começou muito antes da formação acadêmica. Há três anos, Kely concluiu o curso de Educação Física, impulsionada pelo desejo de viver daquilo que ama. “Estar em academia sempre foi meu lugar. Nunca passei por uma situação tão constrangedora como essa”, desabafa.
Com 1,75m de altura, e dedicação ao físico, Kely se destaca pelo porte físico construído com muito esforço, disciplina e uma alimentação rigorosamente planejada. Rotina que, até então, causa admiração e, em algumas, pessoas de preconceito por não ter dúvidas sobre a sexualidade da profissional. Na manhã de segunda, ela foi alvo de constrangimento e violência verbal dentro da academia da rede Selfit, em Boa Viagem, na zona sul do Recife.

Após ser impedida por uma aluna de acessar o banheiro feminino, por ter sido confundida com uma mulher trans, a personal compartilhou todo o episódio com seus seguidores na internet. “Na hora, eu mantive a calma porque pensava na minha profissão. Mesmo sendo constrangida, ainda tive o medo e a preocupação de que aquilo pudesse prejudicar minha carreira, já que estava em uma academia de classe média alta. Eu amo o que eu faço”, afirma.
Mãe de uma jovem de 25 anos e avó de um menino de 7, Kely diz que, um dia após a confusão, sequer encontrou forças para sair de casa. “Eu não vou esquecer isso. É uma dor que fica. Mas não vão me calar. Eu sei quem eu sou”, reforça.

Kely aguarda o resultados das investigações da Polícia Civil de Pernambuco.
A academia Selfit se posicionou sobre a confusão dentro de uma unidade da rede. A empresa diz que lamenta o episódio e garantiu que “repudia” qualquer ato de preconceito, discriminação ou violência.
O homem e a mulher filmados tentando impedir que a personal utilizasse o banheiro feminino ainda não foram localizados pela reportagem.
Com informações de g1 e CNN