7 de março de 2026 | REGIÃO DO SISAL

Novembro Negro: Palavras que ferem e a urgência de uma comunicação antirracista no Brasil

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No mês de novembro, em que o Brasil reflete sobre a Consciência Negra, e principalmente neste dia 20 de novembro de 2025, dia em que marca o Dia da Consciencia Negra como feriado pela primeira vez, é indispensável voltar o olhar para um aspecto muitas vezes ignorado, mas profundamente enraizado em nossa cultura: a linguagem. Termos e expressões repetidos diariamente por milhões de brasileiros carregam marcas históricas de violência, escravidão e desumanização de pessoas negras. Palavras que parecem “inofensivas” são, na verdade, heranças de uma sociedade construída sobre o racismo estrutural. Termos como “criado-mudo”, “mercado negro”, “dia de branco”, “cabelo duro”, “negrinha”, “cuia”, “meia-tigela”, “mulata”, “feito nas coxas”, “a dar com pau”, “da cor do pecado”, “cabelo ruim”, “denegrir”, “a coisa ficou preta” e “serviço de preto” são expressões racistas, pois carregam em seus significados marcas do racismo estrutural e do período da escravidão no Brasil.

No Portal Massapê, reforçamos a importância de uma comunicação antirracista. Em um país com histórico tão profundo de desigualdade racial, não basta “não ser racista”, é preciso ser ativamente contra o racismo, combatendo-o inclusive nos detalhes mais sutis, naquilo que se diz sem perceber, mas que fere e perpetua preconceitos.

A seguir, alguns dos termos ainda usados no cotidiano e suas origens:

1. “Criado-mudo”

O móvel ao lado da cama recebeu esse nome durante o período escravocrata. Ele se refere ao escravizado que permanecia em silêncio, ao lado do senhor, para servi-lo durante a noite.
Por que é racista: remete à objetificação e desumanização de pessoas negras, reduzidas a “mudos” e submissos.

2. “Mercado negro”

A expressão surgiu associada a atividades clandestinas e ilegais, reforçando o vínculo entre “negro” e algo proibido, perigoso ou negativo.
Por que é racista: reforça a associação simbólica entre negritude e ilegalidade, inferioridade ou crime.

3. “Dia de branco”

Usada para dizer que é o dia de “fazer tudo certinho”.
Por que é racista: cria oposição direta, sugerindo que “coisas boas” são de branco e o resto seria de negro — ou seja, negativo.

4. “Cabelo duro”, “cabelo ruim”

Termos usados historicamente para criticar cabelos crespos e cacheados.
Por que é racista: reforça o padrão eurocêntrico de beleza e inferioriza características predominantes na população negra.

5. “Negrinha” / “Negrinho”

Usado supostamente como diminutivo “carinhoso”, mas com longo histórico de escravização infantil e subserviência.
Por que é racista: infantiliza e reduz pessoas negras, ecoando o período em que crianças negras eram tratadas como propriedade.

6. “Cuia” e “Meia tigela”

Chamadas ofensivas usadas para diminuir pessoas negras, especialmente crianças, associando a forma do cabelo crespo a objeto doméstico.
Por que é racista: ridiculariza características físicas e reforça estereótipos de inferioridade.

7. “Mulata”

Tem origem no espanhol mulata, derivado de mula — híbrido de cavalo e jumento. Era usada para designar mestiços entre brancos e negros.
Por que é racista: animaliza pessoas negras e sexualiza mulheres negras.

8. “Feito nas coxas”

Nas senzalas, escravizados moldavam telhas com as próprias coxas — mas isso não significa falta de qualidade, como o ditado afirma. A expressão distorce a história e associa o trabalho escravo a algo malfeito.
Por que é racista: desvaloriza o trabalho forçado de pessoas escravizadas e perpetua ideia depreciativa.

9. “A dar com pau”

Na escravidão, escravizados eram frequentemente espancados com paus. A expressão acabou adquirindo significado de “algo em grande quantidade”.
Por que é racista: normaliza, mesmo sem intenção, um instrumento de violência contra pessoas negras.

10. “Da cor do pecado”

Usado como elogio para pessoas negras, especialmente mulheres.
Por que é racista: sexualiza a negritude e vincula pessoas negras ao erotismo, objetificação e à hipersexualização, ainda vinculando ao aspecto religioso negativo do pecado.

11. “Denegrir”

Significa “tornar algo sombrio, ruim, negativo”.
Por que é racista: liga diretamente o conceito de “escurecer” a algo negativo, reforçando o imaginário de que o negro é ruim ou inferior.

12. “A coisa ficou preta”

Utilizada para indicar que algo ficou difícil, complicado.
Por que é racista: novamente vincula “preto” a algo negativo, perigoso ou ruim.

13. “Serviço de preto”

Expressão usada para dizer que algo foi mal feito.
Por que é racista: remete diretamente à desqualificação do trabalho de pessoas negras, reforçando estereótipos de incapacidade.

Por que isso importa?

Palavras moldam percepções, e percepções moldam comportamentos. Cada expressão dessas é uma semente plantada no imaginário social, reforçando desigualdades, mesmo que de forma silenciosa.

A comunicação antirracista começa ao reconhecer essas raízes e se comprometer a substituí-las por expressões que não carreguem violência simbólica.
O racismo não se combate apenas nos grandes atos, mas sobretudo nos pequenos hábitos que repetimos diariamente.

Em um país como o Brasil — construído sobre séculos de escravidão — lutar contra o racismo exige ação constante. Exige rever linguagens, desconstruir costumes, ensinar novas gerações a respeitar e valorizar a diversidade do povo brasileiro.

Novembro Negro não é apenas um mês de reflexão, é um chamado para mudança contínua.

No Portal Massapê, reafirmamos nosso compromisso: combater toda forma de racismo, inclusive aquele que se esconde nas palavras.