Em Serrinha, o prefeito Cyro Oliveira Silva Novais (MDB) surpreendeu ao anunciar, na noite de terça-feira, dia 18, o envio de um projeto de lei à Câmara de Vereadores que autoriza o rateio de aproximadamente R$ 28 milhões para a educação municipal, contemplando todos os profissionais da rede. O comunicado foi feito ao final da primeira sessão ordinária do Legislativo, quando o gestor compareceu pessoalmente ao plenário para entregar a proposta. Em contraste, em Biritinga, o cenário apresentado pela gestão do prefeito Gilmário Souza de Oliveira, conhecido como “Gil de Gode”, assume contornos muito mais preocupantes. No dia 28 de outubro de 2025, ele enviou ao Legislativo municipal um projeto de lei (PL nº 24/2025), em regime de urgência, solicitando autorização para que o município contraia um empréstimo de R$ 10,5 milhões junto ao Banco do Brasil, sob a alegação de “relevante interesse público”. Enquanto um distribui o dinheiro para valorização dos servidores, outro busca endividar ainda mais o município.
Durante seu pronunciamento, Cyro afirmou que apesar de “pressões contrárias”, decidiu pela medida “porque acho justo”. “Eu recebi muita pressão pra não fazer isso … porque alguns não achavam justo. Mas eu acho justo. A educação é feita por todos os profissionais que trabalham, desde a secretária de Educação até o estagiário que está lá”, declarou. Ele frisou que o projeto altera a legislação municipal para permitir a distribuição igualitária dos valores. “Eu fiz questão de vir aqui na Câmara entregar esse projeto … mas altera para dar igualdade”, completou. Reconhecendo a importância dos professores, ele ressaltou: “eu reconheço a importância dos professores … mas eu acho justo que, nesse apoio de final de ano, a merendeira, o porteiro e todos da empresa recebam exatamente igual ao que o professor recebe”. Ao final, o prefeito pediu o apoio dos vereadores para aprovação da medida. Agora, o projeto segue para análise das comissões da Câmara antes de votação.
Já em Biritinga, o que chama atenção é que o texto do projeto de empréstimo que menciona obras como implantação de usina fotovoltaica, aterro sanitário, estações de tratamento de esgoto e pavimentação em comunidades quilombolas, porém não apresenta planilhas, estimativas de custo, cronograma nem viabilidade técnica. Ou seja: a Câmara foi convidada a aprovar um endividamento milionário sem conhecer com clareza onde, como ou quando o recurso será aplicado. Em entrevista à reportagem, o prefeito justificou que “o município de Biritinga, por estar junto ao Sistema Tesouro Nacional, tem a possibilidade da contratualização desse recurso para um prazo de financiamento de 10 anos, desde que a Câmara autorize”. Ele afirmou que “as comunidades deverão, de maneira democrática, definir onde os recursos deverão ser empregados” e admitiu que os projetos de engenharia ainda “não foram anexados pois estão sendo finalizados”.
Além desse empréstimo em análise, o cenário fiscal de Biritinga é alarmante: relatório da Dívida Fundada Interna do município aponta que o total das dívidas ultrapassou R$ 100,8 milhões em 2024, e este montante não inclui débitos com a Coelba, Caixa Econômica Federal, Bradesco, Banco do Brasil, ASCOOB e SICOOB; apenas as dívidas com Coelba e Banco do Brasil se aproximam de R$ 90 milhões. Também há histórico recente de contas rejeitadas pelo Tribunal de Contas dos Municípios da Bahia (TCM-BA) relativas à Prefeitura de Biritinga, com representação para ressarcimento e multa ao prefeito Gilmário.
Em paralelo, enquanto a gestão municipal pressiona por esse empréstimo, moradores de diversas comunidades de Biritinga relatam problemas graves e persistentes de abastecimento de água potável, sem que este tema apareça com protagonismo na pauta governamental, diversas obras inacabadas que ja foram pagas, além de outras obras concluídas que já estão dando problemas, como visto nas ultimas chuvas. Tal descompasso entre prioridades, endividamento e anúncio de obras futuras vs problemas básicos como saneamento e água – reforça críticas à conduta da gestão.
O exemplo de Serrinha sugere um modelo em que a administração assume compromisso claro com valorização dos servidores da educação, um setor chave para o futuro da cidade. Em Biritinga, a combinação de elevados passivos, proposta de nova dívida, falta de transparência e pendências de serviços básicos sugerem risco real para a sustentabilidade fiscal e para a qualidade dos serviços públicos.
Cabe à Câmara de Vereadores de Biritinga exercer papel rigoroso de fiscalização: projetos em regime de urgência, especialmente de endividamento, exigem relatórios detalhados, estudos de viabilidade, estimativas orçamentárias e participação democrática das comunidades envolvidas. A pressa anunciada pela gestão municipal, sem esse respaldo, configura-se como sinal de improvisação ou falta de planejamento, elementos que não se coadunam com a boa gestão pública e os princípios da responsabilidade fiscal.
Enquanto em Serrinha a gestão assume uma postura de inclusão e reconhecimento ao apresentar um rateio significativo para a educação, em Biritinga surge o retrato de uma administração que prioriza o endividamento e revela fragilidades estruturais e de transparência. As diferenças entre os dois municípios não são meramente de perfil ou estilo, elas manifestam escolhas políticas e administrativas que, no fim, afetam a vida dos servidores, das famílias e da comunidade em geral. Em Biritinga, os biritinguenses têm o direito de saber: por que esse empréstimo agora? Qual o plano para pagar? Qual priorização para o básico? A transparência e a responsabilidade não são opcionais, são exigências de quem governa para o povo.