7 de março de 2026 | REGIÃO DO SISAL

Câmara de Biritinga volta a suspender sessão em meio à polêmica sobre empréstimo milionário

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Mais uma vez, a Câmara de Vereadores de Biritinga frustrou a expectativa da população ao suspender a sessão ordinária que deveria acontecer nesta quarta-feira (12). A justificativa apresentada pelo presidente da Casa Legislativa, segundo comunicado oficial, foi o falecimento da mãe de um dos funcionários da Câmara, motivo que levou à suspensão de todo o expediente do dia, inclusive da 13ª sessão do segundo período legislativo.

Embora o luto seja um momento de respeito e solidariedade, a decisão de paralisar completamente o funcionamento da Casa Legislativa tem sido vista com desconfiança por parte de moradores e observadores políticos. Isso porque as suspensões de sessões em Biritinga têm se tornado rotina, e quase sempre por razões consideradas frágeis ou, no mínimo, questionáveis.

Somente neste segundo semestre, diversas reuniões foram canceladas. No fim de outubro, por exemplo, o presidente da Câmara já havia suspendido uma sessão alegando “chuvas intensas”, mesmo com o prédio em perfeitas condições e os vereadores dispondo de transporte próprio. Antes disso, outra sessão deixou de acontecer sob o argumento de que os parlamentares iriam “prestigiar” a solenidade de passagem de comando do 16º Batalhão da Polícia Militar, em Serrinha, evento que ocorreu a menos de 20 km de Biritinga e terminou antes do horário previsto para o início da sessão.

A sucessão de adiamentos gera preocupação e críticas. Com apenas uma sessão semanal, cada cancelamento representa um atraso significativo na tramitação de projetos e na discussão de pautas de interesse público. “É como se a Câmara funcionasse quando quer, e não quando o povo precisa”, disse um morador ouvido pela reportagem.

O cenário se torna ainda mais grave diante do que estava previsto para a pauta desta quarta-feira: a apreciação do Projeto de Lei nº 24/2025, encaminhado pelo prefeito Gilmário Souza de Oliveira, o Gil de Gode, que solicita autorização para o município contrair um empréstimo de R$ 10,5 milhões junto ao Banco do Brasil. O projeto, enviado em regime de urgência, carece de transparência sobre a destinação dos recursos e não apresenta planilhas, estimativas de custo ou estudos de viabilidade técnica, pontos que vêm sendo amplamente questionados pela população.

Na prática, a suspensão da sessão adia novamente uma decisão que tem potencial de impactar o futuro financeiro de Biritinga, e cheira a manobra para tentar evitar uma decisão que derrube o empréstimo. O município já figura entre os mais endividados da Bahia e, segundo dados do Tribunal de Contas dos Municípios (TCM), ultrapassou a marca de R$ 100 milhões em dívidas em 2024. O novo empréstimo, se aprovado, ampliará ainda mais o passivo e deixará a conta para a próxima gestão, já que o financiamento proposto prevê um prazo de dez anos para pagamento e carência de três.

Para críticos, o adiamento da votação levanta suspeitas sobre as reais intenções por trás das constantes suspensões. “Parece que a Câmara está ganhando tempo, seja para evitar debate, seja para acomodar interesses”, comentou um morador. “Enquanto isso, projetos importantes ficam parados, e a população continua sem respostas.”

Em um momento em que o município enfrenta carências básicas, como a falta de água potável em diversas comunidades, a paralisia da Câmara acentua a sensação de descaso com o interesse público. O Legislativo, que deveria ser o espaço de fiscalização, debate e transparência, tem se mostrado cada vez mais distante dessas funções.

Com o histórico de cancelamentos e a pauta travada, a imagem da Câmara de Biritinga se deteriora diante da opinião pública. A recorrência de suspensões, somada à falta de justificativas plausíveis, reforça a percepção de uma Casa que se tornou refém da conveniência política e alheia ao dever constitucional de legislar e fiscalizar.

Enquanto isso, a população segue esperando, por sessões, por votações e, principalmente, por vereadores que cumpram o papel para o qual foram eleitos.