7 de março de 2026 | REGIÃO DO SISAL

Acarajé: da alforria à economia familiar, iguaria ancestral que já financiou a liberdade segue sustentando gerações

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O tradicional acarajé, um dos símbolos mais fortes da cultura baiana, não é apenas um patrimônio gastronômico: sua história é marcada pela luta, resistência e autonomia de mulheres negras e continua, até hoje, sustentando famílias e gerando renda no comércio informal de Salvador.

Reconhecido há mais de duas décadas como patrimônio cultural da capital baiana pela Lei nº 6138/2002, o acarajé tem suas origens profundamente entrelaçadas à herança africana e ao sincretismo religioso, carregando saberes e práticas que atravessam séculos.

Especialistas destacam que, historicamente, o ofício das baianas de acarajé foi uma das primeiras formas de trabalho autônomo proporcionado às mulheres negras, especialmente no século XIX. A venda dos quitutes nas ruas de Salvador não só garantiu sustento econômico para famílias, como também foi utilizada para financiar alforrias e apoiar a manutenção de comunidades e terreiros de cultura afro-brasileira.

Para muitos dos profissionais que vivem do ofício hoje, o acarajé é mais do que um alimento: representa memória, identidade e resistência cultural. A socióloga e ativista Thaísa Barros ressalta que as características do tabuleiro e a própria prática de comercialização “se tornaram pilares da cultura local”, conectando o presente às histórias ancestrais dos povos afrodescendentes.

Baianas e baianos que trabalham com acarajé carregam a tradição com orgulho, mas também enfrentam desafios. Além das dificuldades do comércio informal e da economia local, muitos relatam episódios de desrespeito e preconceito, sinalizando que o reconhecimento cultural ainda precisa ser acompanhado por maior valorização social e respeito ao trabalho que sustentou tantas famílias ao longo das gerações.

O legado do acarajé segue não apenas nas mãos que o preparam, mas na própria estrutura de sustento que ele proporciona, reforçando a importância de preservar a tradição como forma de empoderamento econômico e cultural.

Com informações e images de jornalmassa.