10 de março de 2026 | REGIÃO DO SISAL

“Treinando caso ela diga não”: vídeos que simulam agressões a mulheres viralizam no TikTok e geram revolta nas redes em meio a escalada de violência e recorde de feminicídios

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Uma tendência preocupante nas redes sociais tem provocado forte repercussão e críticas de especialistas e usuários. Vídeos publicados no TikTok simulando agressões contra mulheres que recusam pedidos de namoro ou casamento viralizaram na plataforma, levantando debates sobre a banalização da violência de gênero na internet.

A trend costuma usar a frase “treinando caso ela diga não”, exibida na tela antes de os autores encenarem reações violentas diante da possibilidade de rejeição. Nos vídeos, criadores simulam socos, golpes ou gestos agressivos após imaginar que uma mulher recusou uma investida amorosa.

Conteúdos viralizam como “humor”

Em muitos casos, as publicações são apresentadas como memes ou vídeos humorísticos, acompanhados de músicas populares da plataforma. O formato simples facilita a reprodução do conteúdo e a disseminação rápida entre usuários, que gravam versões semelhantes ou respondem aos vídeos com reações e duetos.

Apesar disso, a tendência tem sido amplamente criticada. Usuárias e especialistas apontam que, mesmo quando apresentada como brincadeira, a prática contribui para normalizar comportamentos violentos contra mulheres, além de reforçar estereótipos e discursos misóginos nas redes sociais.

Nos comentários das publicações, muitas pessoas classificaram o conteúdo como “preocupante” e afirmaram que violência contra mulheres não deve ser tratada como piada.

Debate ocorre em meio a dados alarmantes

A repercussão acontece em um contexto de aumento da violência de gênero no Brasil. Dados do Ministério da Justiça apontam que 2025 registrou recorde de feminicídios, com 1.470 mulheres assassinadas — uma média de cerca de quatro vítimas por dia no país.

Especialistas alertam que conteúdos que simulam ou incentivam agressões podem reforçar comportamentos machistas e influenciar jovens que buscam referências de relacionamento nas redes sociais.

Plataforma remove vídeos e caso chega ao Ministério Público

Após a repercussão, alguns vídeos deixaram de aparecer nas buscas ou foram removidos. Em nota enviada à imprensa, o TikTok informou que conteúdos que incentivem violência violam as Diretrizes da Comunidade e que publicações identificadas foram retiradas da plataforma.

O caso também ganhou dimensão política. A deputada federal Duda Salabert (PDT-MG) acionou o Ministério Público para investigar perfis que disseminaram o conteúdo, alegando que os vídeos podem incentivar ódio e violência contra mulheres.

Parlamentares também solicitaram que a Procuradoria-Geral da República avalie possíveis crimes relacionados à apologia à violência de gênero nas publicações.

Discussão sobre responsabilidade das redes

Especialistas em tecnologia e comportamento digital afirmam que tendências desse tipo costumam ganhar visibilidade porque geram alto engajamento nas plataformas. Ao mesmo tempo, criticam a dificuldade das redes sociais em remover rapidamente conteúdos que promovam ou banalizem violência.

A polêmica reacende o debate sobre responsabilidade das plataformas digitais na moderação de conteúdo e sobre os impactos de trends virais que podem reforçar discursos de ódio ou práticas violentas, especialmente contra mulheres.