7 de março de 2026 | REGIÃO DO SISAL

Caruru de São Cosme e São Damião é tradição em 27 de setembro; iguaria é patrimônio imaterial da Bahia

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No calendário religioso e cultural da Bahia, setembro tem um sabor particular: o do caruru de São Cosme e São Damião. É tradição, reconhecida desde 2024 como patrimônio imaterial da Bahia, ofertar o prato ao longo de todo o mês de setembro. Mas, especificamente no dia 27, a procura é maior.

A data celebra os Ibejis, orixás gêmeos associados aos santos católicos — também gêmeos —, oficialmente comemorados na véspera. Tal associação é fruto do sincretismo religioso, que reúne elementos de diferentes religiões.

O caruru começou a ser oferecido na Bahia no período colonial, por ser um prato que possui ingredientes de cada entidade da religião. A refeição era doada nas ruas, geralmente como pagamento de promessas alcançadas.

Depois, famílias negras escravizadas, especialmente em Salvador, passaram a preparar o caruru não só dentro dos terreiros, mas também em suas casas, como forma de agradecimento. Essa tradição persiste até hoje e no dia 19 de setembro de 2024, o caruru de São Cosme e Damião foi declarado patrimônio imaterial da Bahia pelo Conselho Estadual de Cultura (CEC).

O prato costuma ser servido primeiro às crianças — por isso, a tradição é também conhecida como “caruru de sete meninos”. O gesto simboliza a ligação direta do caruru com a infância, já que os santos gêmeos são lembrados como protetores das crianças e os ibejis são ligados à alegria, brincadeira e fertilidade.

Depois, os adultos são convidados a comer. Ao final, doces são distribuídos.

Ainda segundo o costume, quem encontrar um quiabo inteiro no prato deve oferecer um caruru completo no próximo ano.

“Todo o preparo é litúrgico e segue os preceitos e fundamentos da tradição, desde a forma de cortar os quiabos (em cruz), até na ordem com que é servido no prato os vários elementos que compõem a comida sagrada destas divindades”, explicou a sacerdotisa Gayaku Sinay de Oya.

Na região sisaleira, muitas famílias têm abandonado a tradição de oferecer o Caruru em setembro. Algumas substituíram o pagamento da promessa aos santos gêmeos por uma celebração eucarística ou simplesmente quebraram a tradição, como uma espécie de abandono ou negação, fruto de uma mudança de religião.

Quem por alguma razão já quebrou a tradição afirma que sofreu consequências.

A omorixá do Terreiro Casa Branca – Josenice Guimarães – explica que a promessa está relacionada, diretamente, com a fé e que a ideia de castigo ou punição por interromper a tradição também faz parte da crença.

“Tudo é uma questão de fé. Se você acredita, ela vai ser satisfatória e otimizará a vida do devoto. Do mesmo jeito, se houver quebra na tradição, tudo o que houver de ruim e os fracassos da vida serão atribuídos à quebra desse voto. Tem pessoas que param de oferecer caruru e encontram outra forma de ajudar, tudo é crença”, explicou.

Redação Massapê com informações do g1